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Não pretendo com este texto fazer uma exposição de argumentos pró-vegetarianismo. Já muitos o fizeram e muito bem, pelo que não me parece pertinente repeti-lo. Existem muitas razões para aderir e muitas vantagens no vegetarianismo (que podem ser encontradas, por exemplo, nestes sites), mas o que vou fazer aqui não é enumerá-las. Vou apenas tentar explicar porque adoptei o vegetarianismo (o que é bem diferente) e falar um pouco da minha experiência como vegetariana.
Sou vegetariana - mais especificamente ovo-lacto-vegetariana, isto é, não como carne nem peixe mas (ainda) consumo outros produtos animais, como ovos e laticínios - desde 2002 e mesmo assim explicá-lo não é fácil. Por uma razão muito simples: não há tarefa mais difícil do que explicar o óbvio. Quando algo é óbvio para nós, não temos uma lista de razões e argumentos para defendê-lo; é assim porque sim. E para mim o vegetarianismo é óbvio, embora nem sempre o tenha sido.
Desde pequena adoro animais. Há anos, fui a uma herdade de um primo do meu pai e assisti ao deplorável espectáculo dos bovinos a serem colocados num camião para irem para o matadouro. Os bichos choravam, resisitiam, mas apanhavam com uma vara e eram picados com pregos, de modo que acabavam por entrar no camião. Aquilo meteu-me tanta impressão que tomei a decisão de nunca mais comer carne. No entanto, eu era criança, a minha mãe (que é quem cozinha cá em casa) não me levou a sério e passados alguns dias acabei por voltar a comer carne. Afinal, comer carne "é uma coisa natural", "é a lei da vida"; "é pena que os animais sofram e morram, mas tem que ser"...
Durante a adolescência pensava muitas vezes que, se me era possível evitar o sofrimento e a morte dos animais, deveria fazê-lo. Mas invariavelmente acabava por concluir que "gostaria de ser vegetariana, mas não iria conseguir". Mas um dia parece que se acendeu uma luzinha na minha cabeça. A minha mãe estava a falar de um camião de transporte de gado que passou por ela na estrada (nas condições que sabemos), e, subitamente, atingi: comer animais é errado. E ponto final. De repente, aquilo pareceu-me tão claro! De um momento para o outro, deixou de fazer sentido para mim a relativização da matança de animais; matar e/ou fazer sofrer um animal é errado em termos absolutos, seja na caça ou pesca desportiva, seja numa tourada, seja para fazer um casaco de peles ou para comer um bife. Em todas estas situações e em muitas outras, embora numas mais do que noutras, a matança e o sofrimento dos animais são perfeitamente desnecessários.
Tudo isto se tornou evidente aos meus olhos. Como diz Caetano Veloso numa das suas canções, isto surpreendeu-me "não por ser exótico, mas pelo facto de poder ter sempre estado oculto quando terá sido óbvio". E, sentada em frente ao computador, resolvi pesquisar na net sobre vegetarianismo, e tudo o que lia só fortalecia a minha posição. De um momento para o outro, também a desculpa do "não iria conseguir" deixou de fazer sentido. Tendo concluído aquilo que concluí, there was no turning back for me.
Os homens não têm o direito de usar os animais a seu bel-prazer e muito menos de matá-los para satisfazer caprichos alimentares. É tão simples quanto isto. Como há tempos parecia evidente que os brancos tinham direitos sobre os negros e que os homens tinham direitos sobre as mulheres, também hoje nos parece evidente que o homem tem direitos sobre os outros animais - e não tem. Esta analogia pode parecer ridícula, porque a superioridade humana é tão "óbvia" que não pode ser posta em causa, mas a verdade é que no seu tempo, também a superioridade dos brancos e dos homens sobre os negros e as mulheres parecia óbvia - e, em muitas culturas, ainda hoje parece (a posição das mulheres na tradição árabe é disso exemplo). Também a superioridade sobre os animais parece óbvia à maioria das pessoas porque nos é ensinada desde que nascemos. Desde pequenos aprendemos a aceitar isso como natural e pior, aprendemos a aceitar como natural a morte desses animais para a nossa alimentação.
(Uma ressalva para aqueles que contrapõem este argumento com "então isso significa que os animais vão conquistar o direito ao voto?". Não. Ninguém disse que os animais são iguais aos seres humanos - apenas que não são inferiores. Que o ser humano não é senhor dos animais não-racionais e não tem o direito de decidir sobre a sua vida ou morte.)
O consumo de carne pelo ser humano é cultural, não é natural. Por estar tão enraizado na nossa sociedade até chega a parecer natural, e por "ser" natural quase ninguém o questiona; mas não é natural. Nem mesmo necessário. É uma questão de evolução. Hoje em dia, o homem já evoluiu o suficiente para não precisar de cadáveres de animais para se alimentar, tal como - e embora isto seja mais aceite, é exactamente a mesma coisa - já evoluiu o suficiente para não precisar de peles de animais para se vestir.
Um dos argumentos mais utilizados contra o vegetarianismo é que "os animais também se comem uns aos outros". Contudo, parece-me claro que o ser humano não baseia os seus padrões comportamentais nos comportamentos animais: alguns animais urinam para marcar território, arrancam a cabeça dos parceiros sexuais, comem fezes... Se o facto de "os animais o fazerem" significasse que determinado comportamento era "natural" e que como tal era legítimo que fosse adoptado pelo ser humano, estávamos muito mal.
Tendo "acordado" para o facto de que comer carne não é natural, é apenas uma decisão, decidi que deixaria de o fazer, porque não considero correcto que o ser humano mate animais sem necessidade. Ou seja, adoptei o vegetarianismo por razões estritamente éticas. Mas existem muitas outras: ambientais, humanitárias, de saúde, etc. Nos sites que indiquei acima (estes) todos estes argumentos são expostos com detalhe.
Quando se toma a decisão de adoptar o vegetarianismo, o mais difícil são as primeiras semanas, o primeiro mês. Aquela ideia de que vai ser duro ter carne à frente, numa travessa, e não "poder" comer, não corresponde à verdade, ou pelo menos não foi assim comigo - e eu consumia mesmo muita carne. É uma questão de hábito. E é claro que tudo fica mais fácil se se comer boa comida vegetariana. ;o)
Mas quando digo que o primeiro mês é o mais difícil, estou a falar na parte social dessa mudança. Estou a falar na altura em que os familiares, amigos e conhecidos ficam a saber. A alimentação, como sabemos, não é apenas uma necessidade biológica mas também uma série de rituais culturais que quem abraça o vegetarianismo vai alterar, e isso pode provocar perturbações, já que as pessoas têm dificuldade em lidar com situações em que as relações sociais se distanciam do previsto. A diferença choca as pessoas. E elas reagem das mais diversas maneiras.
Aqui em casa tive três tipos de reacções: a minha mãe aceita, respeita e simpatiza com a minha opção; o meu pai e o meu irmão brincam comigo ("Quer dizer que nunca mais comes hamburgers? Nem francesinha? Nem picanha? Nem mortadela?" - enumerando todas as comidas com/de carne de que eu mais gostava), insinuando que eu não iria conseguir "aguentar" por muito tempo; o meu avô (que entretanto já faleceu) parecia achar o vegetarianismo uma "coisa" estranha e impraticável, e dizia-me que "assim não vais poder comer nada". De todas as outras pessoas - conhecidos e desconhecidos - as reacções são as mais variadas. Um vegetariano nunca está imune a olhares e comentários de gozo ou reprovação, até mesmo agressivos. Basta uma pesquisa rápida por guestbooks ou fóruns vegetarianos para se verificar isso. É que, por ser diferente do que é considerado "natural", as pessoas menos tolerantes sentem o vegetarianismo como uma ameaça ao confortável mundinho onde vivem. Mas com o tempo as pessoas que nos rodeiam habituam-se, e nós também nos habituamos às reacções dos desconhecidos.
Mas eu ainda só vou a meio do caminho. Quero passar a ser vegan, mas abdicar do leite e dos ovos é complicado, não só pela escassez de alternativas (e pelo preço das poucas alternativas existentes!) em Portugal mas também por motivos sociais (muitas vezes a omelete de queijo é a única opção para acompanhar outras pessoas ao jantar, num restaurante). Mas espero daqui a pouco tempo poder comer com a consciência de que a minha contribuição para o sofrimento animal está a ser a mínima possível.
Na prática, ser vegetariano não é complicado. Mais uma vez remeto os interessados em receitas e/ou mais informações sobre vegetarianismo (como a questão da obtenção de todos os nutrientes necessários, por exemplo) para os sites que já mencionei.
Com o meu depoimento não pretendo convencer toda a gente a tornar-se vegetariano (embora não me importasse! :o)). Pretendo apenas chamar a atenção para o facto de que comer carne não é natural - é um comportamento cultural, como aliás a maior parte dos comportamentos humanos, e como tal deve ser questionado. Cada pessoa deve questionar o estabelecido e tomar uma decisão. Porque existe uma alternativa, e, sendo assim, decidir continuar na mesma estrada também é decidir.
Henry David Thoreau disse uma vez que "não tenho dúvidas que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais". Leonardo da Vinci vai mais longe: "Tempo virá em que os seres humanos se contentarão com uma alimentação vegetariana e julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassínio de um homem". Pelos animais, pela natureza e pela própria humanidade, espero que um dia todas as pessoas do mundo sejam vegetarianas. E acredito nesse dia.
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